Dançar escreve Um traço leve O verbo de Deus be-a-bá
Algumas semanas atrás, movido menos por nostalgia que por um sentimento de leve desespero, reli antigos posts deste blog. Fui tomado por uma sensação estranha, um misto de alegria e melancolia. Os posts que reli eram de 2003. Na época talvez não tenho me dado conta disso, mas o que percebo agora é O Cotidiano representou na minha vida muito mais do que um simples blog que um dia acabou, como tantos outros. O que estava em jogo ali, através de palavras, gestos e intenções, era muito mais do que textos de um grupo de amigos sobre diversos setores do cotidiano, comentários inúteis e rixas tolas. Era um dialogo com um momento de passagem, era a ação através de uma gramática incerta, de letras temerosas e opiniões apressadas. Enfim, estávamos (Eu, Ju, Pedro, Fred, Andrea e Alanna) atravessando um momento da vida, o fim da adolescência e o começo da vida adulta (seja lá qual for o sentido que isso tenha).
O mais interessante que eu notei ao reler os textos antigos não foi os temas, as discussões ou os comentários, mas o fato de que o fazíamos sem qualquer intenção maior, sem qualquer pretensão de parecermos profundos. O que escrevíamos era a perfeita tradução daquilo que pensávamos, daquilo que sentíamos, por mais profundo ou banal que fosse. A vida estava ali, através de palavras incertas e frases temerosas, barrando desejos e indicando caminhos. Buscávamos através de um blog atravessar juntos as veredas mais obscuras que a vida nos mostrava.
Um dia qualquer, sem maiores explicações, assim como começou, tudo acabou. Seja por motivos conhecidos por todos, seja motivos ainda obscuros. Sem adeus, nem brigas. Foi bom que aconteceu assim. Depois houve algumas tentativas de revitalizar este espaço (como talvez seja essa minha intenção agora), mas o fato de que o que nos reunia em torno dele já havia passado (ou pelo menos havia sido mais bem digerido pelos integrantes do grupo) fez com que o gesto fosse inútil, ou pelo menos talvez não havia força suficiente nele. Sei lá.
Talvez esteja mesmo sendo nostálgico, talvez piegas ou exagerando na importância de um simples blog. Talvez. Mas o que importa é que aquela semana em que reli os textos aqui publicados foi bastante importante para mim. Porque, de uma maneira ou de outra, O Cotidiano me fez encontrar alguns sentimentos e gestos adormecidos na minha memória que agora busco, não para reavê-los, mas para, ao entrar em contato com eles, buscar algo que, durante pelo menos dois anos, tentei renegar.
Estou a ler um livro. Chama-se Ensaio Sobre a Lucidez. É do José Saramago. Pra quem conhece, já deu pra perceber na primeira fase do texto o estilo do autor. Nada demais. A não ser a língua vernácula do seu país, Portugal, com o exagero (digo, sem teor de crítica) dos intelectuais. O cara fala sobre um país – mais especificamente, uma cidade --, onde a maioria da população votou em branco. A idéia, por si só, é genial. A partir do pressuposto de que eu não sou gênio e não pensaria nisso nunca... Pois então, sabe a minuciosidade (ta certo isso?)? O cara escreve com os mais riquíssimos detalhes. Digo, só quando ele os quer mostrar. Diferentemente de Tolkien, ao radiografar a terra média e seus habitantes. Mas longe da, ao meu ver, inválida comparação, Saramago explica, quando pode parecer ser desleixado com sua história, o porque da ausência de minuciosidades no texto. O tema não é a cor da cadeira da sala de estar. E isso pouco influiria na história. A questão é que os valores cívicos da democracia foram colocados em xeque! Vocês sabem o valor disso?! Tentem imaginar, no Brasil, a maioria da população votar em branco, e o estado ficar sem ação política diante da negação de seus valores impostos à sociedade – e por ela abnegados. Paralelo ao narrador, onipresente e onisciente, mas não o bastante para deixar a história desinteressante com uma possível linha de raciocínio decifrável, aparece a cobertura dos fatos pela imprensa. Para os que se apetecem pelo assunto, no mínimo uma aula de jornalismo. De volta ao texto, o livro fala, em suma, um levante popular contra a uma suposta democracia. Que logo se vê, diante a repressão do governo – de direita, pontua o autor --, nada de democrática tem. A gente vê, que o ser humano, esse ser imbecil estabelecido em sociedade pode ser muito mais do que é. Pode representar e estar o ideal de sociedade, e, digo isso, longe do pieguismo de pregar uma sociedade igualitária em 2005. Digo, leiam o livro. Ainda não terminei. Ainda estou na metade. Reparem, mas não se prendam no texto do autor. Nos longos, mas nunca intermináveis períodos que o autor constrói. Vejam, vislumbrem na sua cidade a história que ele conta no texto: A metade de um espelho da socidedade; a banda ruim. Espero que a parte boa que se revele um dia. Meu voto, amigos, até página 144 das 320 e poucas, e em branco!
Outro dia fui no supermercado. Minha mãe queria fazer um churrasco. Então vamos lá. Fazer essa coisa difícil. Comprar carne, cerveja e afins. To lá a passear pelos corredores. A namorar minhas queridas camisetas listradas. Um saca-rolha daqui. Um suco de laranja acolá. Em meio à miríade de produtos, eis que vejo: uma sandália havaiana. Não sou bicho-grilo, nem corózeiro nem o diabo! Muito pelo contrário. Meu gosto é o inverso. Mas isso não vem ao caso. Lá estava a alpargata. Era dessas modernas, sabe? Essas que prendem pelo calcanhar. Igual a mãe fazia quando se é criança. A diferença é que a mãe usa elástico vagabundo. Nessas não. Era do mesmo material do resto da sandália – ou chinela, né? Era bonita. Era moderna. Já vi muita gente no shopping usando modelos iguais. Só que em couro. Entende-se. Estavam no shopping. Pra usar havaianas no shopping tem que ser muito descolado. Acho que é porque já não está mais na moda. Digo isto porque, pelo que me consta. Já foi. Mas essa que eu vi no supermercado – e, olhem, não era um hipermercado, nem um supermercado-do-setor-bueno; era só um supermercado --, era diferente. Essa sim. Ah sim. Essa o pessoal usaria no shopping numa boa. Ela era preta e vermelha. Não. Não era do Flamengo. Mas a despeito do time, são cores que ficam bem juntas. Me aproximei da sandália. A esse momento já estava tentado há comprá-la. Tenho esses ímpetos consumistas. Além do fato de minha chinela fazer barulho de brinquedo de criança quando saído do banheiro. Quando chego diante da havaiana, já a calcular meus gastos, reparo na parte pisante do pisante (se é que fui claro): Não eram flores. Não era o brasão da CBF e nem do Flamengo – como já se disse. Cara, tava escrito assim, ó: Coca-Cola. Em letras cocacolais. Agora me diga, o que leva uma empresa a produzir uma chinela com a marca da Coca-Cola e ainda querem vende-las. É a cara de promoção da coca-vibe. Mas vender? Vender não! É utrajante! Pelo menos é o que eu acho. Eu diria que aquela havaiana. Aquela havaiana que, curiosamente tanto representa o Brasil no exterior, havia se tornado americana.