João Rato era um punk. Cuspia nas pessoas, odiava ternos, dinheiro, comia lixo, cheirava cola, sua mãe sempre a lhe dizer: - Cria juízo menino! Mas João não lhe dava ouvidos, gostava mesmo era de xingar, assustar velhinhas e cidadãos comuns. Certo dia João Rato conhece Maria Sebo, também era punk, os dois no primeiro encontro cuspiram um no outro e beberam juntos até caírem, entraram em coma alcóolico abraçados. Depois desse dia viraram namorados, os dois se amavam (odiavam?), viviam juntos, cheiravam cola, cuspia, roubavam, fizeram uma banda para protestar contra a burguesia, viviam felizes (?). Tiveram um filho, um lindo punkizinho, cuspia tão bem quanto a mãe, sua primeira mamadeira fora um litro de cola... agora sim, uma família feliz! O pai que amava (?) muito seu filho precisava trabalhar, arrumou um emprego na padaria da esquina, ganhou algum dinheiro, o filho crescia, a mãe engordara, João parou de cuspir, agora aprendera a contar, contava os dias, contava as notas, contava histórias. Agora seu João está aposentado, está careca, usa óculos, toma café toda manhã, joga damas com os amigos da padaria. Seu filho, crescido, agora é um cyber-punk e sua mãe lhe diz todo dia: - Cria juízo menino! ... João era feliz!
Seis de outubro de dois mil e dois, José se levanta cedo. Tem uma missão a cumprir.É dia de eleição. Já começa o dia amargo, como o café que sua esposa acabara de fazer.Havia passado os últimos meses ‘vendo e ouvindo’ eleições por todos os lados.Não agüentava mais aquilo, estava saturado. José tinha segundo grau completo, portanto não era um analfabeto.Tinha plenas condições de fazer a sua escolha.Mas depois de três eleições presidenciais ele já tinha perdido as esperanças na tal da democracia. Mesmo assim, por falta de opção ele foi votar. Já tinha escolhido seus candidatos. Porém durante o caminho foi extremamente incitado a votar em determinados candidatos que não apreciava muito. José estava assustado com a indecência do povo – entre esses, amigos de infância dele – que trocaram todas suas convicções políticas por algum dinheiro ou cargo político. Depois de umas duas horas no sol para poder votar. Isso porque os analfabetos do Brasil ainda não sabem como usar objetos eletrônicos. Ele conseguiu. Chegou em frente a urna, pensou um pouco e concluiu que se não votasse em ninguém estaria sendo mais sincero com ele mesmo. Nessa hora que lhe deu saudades da antiga cédula eleitoral, onde podia avacalhar e xingar os políticos à vontade. Voltou para casa feliz consigo mesmo, em meio a toda aquela sujeira que os porcos engravatados patrocinaram para angariar votos. Horas depois constatou que teria de voltar às urnas, a eleição presidencial foi para o segundo turno. No dia 27 lá estará José outra vez, para exercer ‘o seu direito de cidadão’. Pobre José.
Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, maírs e perôs [franceses e portugueses] buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros. Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados (Léry 1960:151-61)
( Retirado do livro: O Povo brasileiro de Darcy Ribeiro)