Fui à missa. Não volto mais.
Ontem fui à missa. Em uma igreja católica, claro. (Não me sentiria bem em meio a tantos demônios.) Era a missa de sétimo dia de um tio-avô. Mal o conhecia. Nem a ele nem a sua família, que por força do destino, também é minha. Como ocorreu: “Como fulaninho cresceu!” “Olhe, ele é a cara do tio Arquimedes!” “Meu menino tem a mesma idade que a sua...” (!?!)
Até aqui tudo bem. Imagino que seja assim na maioria das famílias. O que não era nada convencional nessa cerimônia era o padre. Ele parecia meio louco. Ao citar os falecidos, sempre se referia a uma tal D. Alice como D. Maria Alice. Os parentes dela devem ter achado que erraram de igreja.
Quando ia se referir ao meu tio, cujo nome é Rômulo Palazzo (lê-se como se escreve) sempre dizia Rômulo Palasso. Meu sobrenome italiano, já aportuguesado em sua pronuncia, acabara de ser abrasileirado. Fazer o quê?!
O clérigo, que parecia haver se esquecido da pobre “Maria” Alice, só falava dos dotes culinários de meu parente. Dos ótimos vinhos que ele servia a sua mesa etc. O padre chegou a entregar que o falecido era adepto à jogatina.
Hora do sermão. O padre indaga seus fiéis: “O que mais mata numa família?” Alguns responderam violência, ódio, desamor. Segundo o padre não é nada disso. Para ele, é o vício que mata. Dá-lhe sermão em cima de nós fumantes. Repleto de dados estatísticos que tratam dos malefícios do álcool e do tabaco. Haja saco.
Para a saudação dos povos e para pedir a paz mundial, o padre evocou todas as espécies de lideres religiosos, em todas as suas versões: Xamãns, pastores, tupãs, aiatolás, padres etc. E depois o desatinado padre saudou aos povos, segundo ele, em suas línguas regionais. Russo, indígena, inglês, espanhol, japonês e o que mais puderem imaginar.
Foi uma experiência horrível. E mesmo se eu tivesse gravado o que ele disse, não ousaria tentar transcrever tais atentados aqui.
Depois de tanta loucura, eu já havia me dispersado a muito. Enviei mensagens para toda a minha agenda telefônica. Eis que ouço o clérigo falar de políticos. Isso me interessa. Ele disse que não havia asfalto, não havia escolas, enfim, não havia quase nada nas cidades do interior. Até que o governador Marconi Perillo assumiu e “levou o progresso ao interior de Goiás”. A esta altura eu e minha mãe nos entreolhamos. Ela fez um sinal dizendo que o padre era louco. E de fato é.
Depois ele justificou ter dito aquilo por ser 2004 ano de eleições. Acredite quem quiser. Disse ainda que a responsabilidade do cidadão brasileiro é grande, pois terá que eleger
“cerca de 1650 prefeitos e mais de 5 mil vereadores”.
Mal sabe o pobre padre que serão mais de 5,5 mil prefeitos a serem eleitos. Sabe-se-lá quantos vereadores.
Confesso que a “missa do Ritão”, como diz minha mãe referindo-se a um dos vários dizeres populares, que neste caso quer dizer que não acaba, me assustou. Não sabia que padres eram tão desinformados e incompetentes. Até cabos eleitorais! Se não fosse abilolado, diria que tal padre sairia candidato a vereador pelo PSDB de Marconi. Num santinho (oportuno o nome, neste caso, não?) ao lado do governador. Mas sei que mesmo ele sendo louco não posso descartar essa possibilidade.
Quase me esqueço, o padre disse ainda, antes de lembrar que estava celebrando uma missa de sétimo dia, que a Guerra do Irã matou muitos. É verdade. Pena que ele se referia à Guerra do Iraque.
posted by pedro palazzo | pedro@ocotidiano.tk |
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