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                      Quinta-feira, Setembro 30, 2004

9/30/2004 11:48:49 AM

DO ALTO DOS MONTES
(F. Nietzsche)

Oh! Meio dia da vida! Época solene!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta da ansiedade na espera:
espero meus amigos, noite e dia,
onde estais, amigos meus?
Vinde! É tempo, é tempo!

Nã0 é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime vôo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?

Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?

Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.

Oh! meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este país de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!

Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!

Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? - Pois agora és mais e com mais brio.

Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com ua mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minhalma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!

O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.

Celebremos, seguros de ua mesma vitória,
a festa das festas!
Zaratustra está ali, o amigo,
o hóspede dos hóspedes!
O mundo ri, o odioso véu cai,
E eis que a luz se casa
Com a misteriosa,
subjugadora Noite.

(Tradução de Márcio Pugliesi)

posted by Eduardo Pinheiro | c_eduardo_p@yahoo.com.br | Comente:

                      Quarta-feira, Setembro 29, 2004

9/29/2004 11:48:02 PM

Roceiro é a mãe (ou de bobo nós só temos a cara e o andado) (ou pernas pra que te quero) (ou Dostoievski é o cara) (ou como vovó já dizia) (ou não sei dessas coisas de gramática)


Um dia num ato ousado resolvi abrir um livro da estante. Dostoievski. Nunca mais escrevo, pensei. Simples assim. Não dá, não é possível. Quem sou eu? Um simples mortal nascido aqui no sertão, Goiás, província cheia de gente, cheia de querer, vivendo de agrobiusinês, pra ingrês ver. Americano. Nem nos ousamos nos chamar de americanos, são eles, fala baixo! Cidade que tá crescendo. Fumaça há de mais. Carro? não sobra mais espaço para pedestre. Modernidades, somos modernos. Temos festival de rock, somos chiques. Óia nóis, uai. Pertim de Brasilha.
Quem como eu ousaria escrever, esse cara escreve de mais! Fiquei aqui traumatizado, tremendo. Quem ousaria? Eu não, não sou louco. Nem dessas regras gramaticais eu sei. Tá louco rapaz?! Olha aí, abre lá, lê, prestatenção. Aí vem nego me falar pra assistir Olga. A menina até raspou o cabelo, as corporações globo gastaram uma fortuna pra fazer propaganda, vai até pro Óscar. Há. Olha lá eles de novo, fala baixo meu filho. O homi de lá vai ganhar de novo. E vai mudar? Nada. Aqui também tem gente ressuscitando da tumba. Pelo menos nisso aqui parece com lá, nada muda, só nome. Agrobiusinês. "Vote no meu candidato senão todo mundo na rua", fala baixo rapaz! Dessas coisas de modernidade a gente entende.
Césio 137 a gente já teve. Agrobiusines é a onda do momento. Show de rock, a cidade está crescendo. Festival internacional de cinema ambiental, que chique! Olha lá o cara falando francês no restaurante de figurão. Tem um bando de gente se protegendo na sombra do coronér aí. Elite agrária, pseudo intelectual, gente fina, informada. Roça não, agrobiusinês. Fazendona moderna, asfaltada, cheia de indústria. Tudo lindo, muito sol, cachoeiras, patrimônio da humanidade (somos humanos!) Cora Coralina, intelectualidade no restaurante da moda e o cornonezim... Tô ouvindo um barulho. Que isso? Parece que tem gente ressuscitando aí. Cuidado, um fantasma!
Eu que não ouso escrever mais nada, Dostoievski escreve demais.

posted by Eduardo Pinheiro | c_eduardo_p@yahoo.com.br | Comente:

                      Segunda-feira, Setembro 27, 2004

9/27/2004 11:29:15 AM

Te amo...

posted by Andrea Silveira | dedeiasonic@hotmail.com | Comente:

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