Estou a ler um livro. Chama-se Ensaio Sobre a Lucidez. É do José Saramago. Pra quem conhece, já deu pra perceber na primeira fase do texto o estilo do autor. Nada demais. A não ser a língua vernácula do seu país, Portugal, com o exagero (digo, sem teor de crítica) dos intelectuais. O cara fala sobre um país – mais especificamente, uma cidade --, onde a maioria da população votou em branco. A idéia, por si só, é genial. A partir do pressuposto de que eu não sou gênio e não pensaria nisso nunca... Pois então, sabe a minuciosidade (ta certo isso?)? O cara escreve com os mais riquíssimos detalhes. Digo, só quando ele os quer mostrar. Diferentemente de Tolkien, ao radiografar a terra média e seus habitantes. Mas longe da, ao meu ver, inválida comparação, Saramago explica, quando pode parecer ser desleixado com sua história, o porque da ausência de minuciosidades no texto. O tema não é a cor da cadeira da sala de estar. E isso pouco influiria na história. A questão é que os valores cívicos da democracia foram colocados em xeque! Vocês sabem o valor disso?! Tentem imaginar, no Brasil, a maioria da população votar em branco, e o estado ficar sem ação política diante da negação de seus valores impostos à sociedade – e por ela abnegados. Paralelo ao narrador, onipresente e onisciente, mas não o bastante para deixar a história desinteressante com uma possível linha de raciocínio decifrável, aparece a cobertura dos fatos pela imprensa. Para os que se apetecem pelo assunto, no mínimo uma aula de jornalismo. De volta ao texto, o livro fala, em suma, um levante popular contra a uma suposta democracia. Que logo se vê, diante a repressão do governo – de direita, pontua o autor --, nada de democrática tem. A gente vê, que o ser humano, esse ser imbecil estabelecido em sociedade pode ser muito mais do que é. Pode representar e estar o ideal de sociedade, e, digo isso, longe do pieguismo de pregar uma sociedade igualitária em 2005. Digo, leiam o livro. Ainda não terminei. Ainda estou na metade. Reparem, mas não se prendam no texto do autor. Nos longos, mas nunca intermináveis períodos que o autor constrói. Vejam, vislumbrem na sua cidade a história que ele conta no texto: A metade de um espelho da socidedade; a banda ruim. Espero que a parte boa que se revele um dia. Meu voto, amigos, até página 144 das 320 e poucas, e em branco!
Outro dia fui no supermercado. Minha mãe queria fazer um churrasco. Então vamos lá. Fazer essa coisa difícil. Comprar carne, cerveja e afins. To lá a passear pelos corredores. A namorar minhas queridas camisetas listradas. Um saca-rolha daqui. Um suco de laranja acolá. Em meio à miríade de produtos, eis que vejo: uma sandália havaiana. Não sou bicho-grilo, nem corózeiro nem o diabo! Muito pelo contrário. Meu gosto é o inverso. Mas isso não vem ao caso. Lá estava a alpargata. Era dessas modernas, sabe? Essas que prendem pelo calcanhar. Igual a mãe fazia quando se é criança. A diferença é que a mãe usa elástico vagabundo. Nessas não. Era do mesmo material do resto da sandália – ou chinela, né? Era bonita. Era moderna. Já vi muita gente no shopping usando modelos iguais. Só que em couro. Entende-se. Estavam no shopping. Pra usar havaianas no shopping tem que ser muito descolado. Acho que é porque já não está mais na moda. Digo isto porque, pelo que me consta. Já foi. Mas essa que eu vi no supermercado – e, olhem, não era um hipermercado, nem um supermercado-do-setor-bueno; era só um supermercado --, era diferente. Essa sim. Ah sim. Essa o pessoal usaria no shopping numa boa. Ela era preta e vermelha. Não. Não era do Flamengo. Mas a despeito do time, são cores que ficam bem juntas. Me aproximei da sandália. A esse momento já estava tentado há comprá-la. Tenho esses ímpetos consumistas. Além do fato de minha chinela fazer barulho de brinquedo de criança quando saído do banheiro. Quando chego diante da havaiana, já a calcular meus gastos, reparo na parte pisante do pisante (se é que fui claro): Não eram flores. Não era o brasão da CBF e nem do Flamengo – como já se disse. Cara, tava escrito assim, ó: Coca-Cola. Em letras cocacolais. Agora me diga, o que leva uma empresa a produzir uma chinela com a marca da Coca-Cola e ainda querem vende-las. É a cara de promoção da coca-vibe. Mas vender? Vender não! É utrajante! Pelo menos é o que eu acho. Eu diria que aquela havaiana. Aquela havaiana que, curiosamente tanto representa o Brasil no exterior, havia se tornado americana.